Entre Tempos

Entre Tempos nasce de uma pesquisa sobre a tradição do shell work e suas formas históricas de composição com conchas.
Entre os séculos XVIII e XIX, as conchas foram reunidas, classificadas e organizadas em composições ornamentais que circulavam entre o artesanato, as artes decorativas, o colecionismo e o ensino. Mais do que simples objetos decorativos, essas práticas desenvolveram uma verdadeira linguagem visual construída a partir de formas naturais.
Os chamados Sailor’s Valentines, produzidos principalmente no século XIX, são um dos exemplos mais conhecidos dessa tradição. Pequenas conchas eram cuidadosamente selecionadas e organizadas em padrões geométricos, florais e radiais, formando rosetas, arabescos, círculos concêntricos e outras estruturas ornamentais.

Exemplos históricos de shell work e Sailor’s Valentines, nos quais conchas naturais são organizadas em estruturas geométricas, radiais e ornamentais.
A pesquisa da Alma Salina também encontrou registros de modelos e gabaritos utilizados para orientar a composição. Publicações de 1854 descrevem padrões previamente desenhados sobre cartões, incluindo arabesques, a partir dos quais as conchas eram posicionadas. Os próprios procedimentos revelam uma preocupação com repetição, simetria, proporção e organização das pequenas unidades que formavam a composição maior.
É desse repertório que Entre Tempos parte.
As obras não procuram reproduzir os objetos históricos, mas investigar seus princípios de composição e transformá-los a partir de uma prática contemporânea. As conchas naturais continuam sendo organizadas manualmente, mas cada composição nasce de novas escolhas, novas relações e novas possibilidades formais.
Entre referência e reinvenção, a série se constrói no intervalo entre aquilo que foi transmitido e aquilo que pode ser transformado.
Entre Tempos é, assim, um encontro entre diferentes temporalidades: uma tradição visual do passado e o gesto de uma artista no presente.

